sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sonho bom



Inofensivo. Era assim que ele estava. Dormindo. (Qualquer ser é inofensivo quando dorme, leitor, disso você bem sabe). Deu-me vontade de passar as mãos em seus cabelos, em sua face, em seus lábios finos, em seus braços, em seu peitoral nu. Mas não. Eu me contive como eu pude, como um alguém que afoga um grito no próprio travesseiro. Eu me segurei. Fiquei só a observar - me limitei a isso. Virei-me pro outro lado, para o canto, passei a admirar a tintura fosca da parede que um dia fora branca só para não sucumbir aos meus devaneios. Curioso como alguém pode ser tão vulnerável enquanto dorme. Eu parecia um frango de padaria (não se apegue a essa comparação estranha), girando e girando na cama sem conseguir pregar os olhos; e ele lá, num sono tão profundo e tão bom que chegou até a me deixar várias e várias vezes com os olhos parados, fixos, mortos, vidrados; boquiaberta. Você tinha que estar lá, leitor. Foi uma visão linda daquele que se gosta. (Tirando a parte frustrante de não conseguir nem poder tocá-lo, acho que todos deveriam passar por isso um dia: ver aquele que se gosta dormindo bela e profundamente). Parece até uma cena meio insana dependendo do ponto de vista. Está certo que foi apenas um sonho, mas realmente, meu caro e nobre leitor, a vista que tive dele dormindo sem camiseta, tão tranquilo e sereno, foi uma cena admirável. Claro que muitos de vocês que leem agora vão achar algo assim banal ou tão natural quanto a luz do dia, mas pense num sonho bom, algo com o qual tu pensa antes de dormir e de repente sonha. É, leitor, é uma cena interessante, ainda não acha? Se não, nada posso fazer - a experiência não vivida é minha e ninguém tasca! No amanhecer, com apenas duas horas mal dormidas, acordei sem fôlego, me faltando o ar, não conseguia respirar; será que são os efeitos do sonho perturbando-me? Não. Bronquite, leitor. Foi apenas aquela velha companheira, Senhora Bronquite, que me atacou logo cedo; às 8 horas da manhã. E foi às 8 horas que ele se foi. E eu fiquei. Como havia de ser. Como era de se esperar, de se imaginar. Afinal, eu sabia que certa hora acordaria. Pela porta ele saiu; fiquei a observar calada novamente, dando-lhe um meio sorriso e dizendo-lhe "até breve!" com meu par de olhos entreabertos e sonolentos. Sem traumas, sem ressentimentos, sem problemas. Horas depois me lembrei de vários detalhes desta surrealidade. Lembrei-me até de risadas, olhares e uma conversa boa. Queria nunca ter acordado naquele dia, leitor, nunca. Porém e por hora, ele se foi, a vida seguiu e eu ainda durmo na esperança de reencontrá-lo pra lhe dizer que (...) 

[to be continued].

1 comentários:

Christoffer Cortezani Mancini disse...

ótimo texto, mas experimente continuar usando esse [to be continue] mas um pouco menor o texto ;) eu adoro ler, mas sei como são a maioria das pessoas, "impancientes". então, aprovado (y)