sábado, 16 de janeiro de 2016

Capítulo I - piscar de olhos


A história a seguir, caro leitor, não é surpreendente!, mas poderia ser, tudo depende dos olhos de quem lê.

Santa Maria, RS, 29 de abril de 2008.

  Dia incrivelmente nublado. Quem compra flores em dias nublados? Mas mesmo assim Antônio não quis saber, bateu o pé e no peito e disse: hoje eu venderei nem que seja um raminho de alecrim ou um pezinho de jasmim. E lá foi ele com toda aquela gratidão por um dia tão estranho. Sua espiritualidade era tão forte que era possível ver de longe naquele homem que trabalhava de segunda a segunda por prazer e com alegria.
  Ele tinha uma esposa de nome - juro que por coincidência, leitor - Rosalinda. Rosa, como o florista gostava de chamá-la, tinha formosura em tudo o que fazia, ela era morena, cabelos escuros e ondulados, olhos de jabuticaba preta, sorriso largo, corpo enxuto e mãos finas. Ela era contida e tinha pudor de quase tudo, mas era muito simpática. Rosa era de uma extrema educação e cordialidade, dava respostas políticas e não desenvolvia conversas muito longas ou abrangentes com colegas de trabalho ou qualquer outra pessoa que não fosse de casa. Não que ela fosse do tipo que "usa cabresto" e não olha para os lados, mas adotava uma postura ao sair de casa que era – quase – irreconhecível. Parece estranho e confuso dizer isso, mas quero que entenda, leitor, que no fundo Rosa era uma manteiga derretida, chorava em tudo quanto é filme e amava ouvir música romântica.
  Claro que Antônio e Rosa não eram o tipo de casal perfeito daqueles que a gente se inspira e quer ser, mas todos admiravam aquela bela conexão que tinham.
  Agora falaremos sobre o florista: era educado, alto, forte mas não musculoso, moreno, olhos de mel – como Rosa chamava – e sorriso largo, mãos grossas cheias de calos e algumas feridas devido aos espinhos das rosas. Este homem era praticamente o contrário de Rosa: descontraído. Conversava com todos de maneira despretensiosa e cheio de carisma, por todos os lugares onde passava ele fazia amizades e sempre conseguia arrancar sorrisos de um rosto triste. Mesmo a vida tendo sido tão dura com Antônio, ele retribuía de forma muito gentil. E isso era o que Rosa mais admirava no companheiro.
  Contudo, entretanto, todavia, Rosa estava infeliz, mas não sabia como dizer a Antônio, afinal: como dizer para aquele que teria sido o homem de sua vida que simplesmente não o ama mais? Um fardo carregado por Rosa durante muito tempo, tanto que nem mesmo ela sabia dizer há quanto... Seu casamento fora muito feliz, com altos e baixos como de costume e comum para a maioria dos casais, até então Rosa havia permanecido com o marido e assim se passaram 25 anos, como num piscar de olhos.

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