segunda-feira, 27 de junho de 2016

Sei lá, é estranho


Na mesa ao lado conversam uma moça e um rapaz, aparentam ter entre 21 e 27 anos. Ambos de sorrisos largos e olhares marcantes. Davam risadas boas das quais não consegui me desvencilhar, queria muito saber a razão daquela risada tão gostosa. Pareciam se conhecer há anos; deveras um casal que combinava muito. O local era uma típica padaria - daquelas boas em que vamos mais pra beber do que comprar pão - onde pediram uma cerveja que tomaram em meio as risadas. Depois pediram mais uma e também o que comer. Foi aí que percebi que suas feições mudaram e o tom da prosa também. Fiquei realmente ainda mais interessada por eles, até troquei de lugar pra poder chegar mais perto e talvez conseguir ouvir algo do que parecia uma conversa despreocupada ter virado algo sério. Para se ter uma noção, cheguei tão perto que quase ouvi a conversa na íntegra! Após comerem pediram a saideira e então a prosa se estabilizou na seriedade. Ouvi o cara dizer que de todas as conversas que tiveram, aquela foi a única em que ele havia conseguido não fazer piadas e que também a moça havia conseguido falar sobre seus sentimentos. Olhei diversas vezes para trás e na última quase me arrependi, pois eles me perceberam. Mas como não olhar? Eles falaram sobre religião, psicologia, os sentimentos dele e, principalmente, os dela... senti honra até, mesmo que oportuna, por ouvir uma conversa tão sóbria em meio a três garrafas de cerveja. 

Era por volta de 21:00 horas e eles resolveram pedir a conta, resolvi pedir a minha também já que não havia mais nada naquele boteco para mim. Segui aqueles dois sem ao menos saber quem eram só pra tentar pegar mais uns trechos da conversa e conseguir ter ao menos um desfecho que me convencesse da relação que eles tinham. Eles decidiram ir para um ponto de ônibus e fiz o mesmo, os segui de longe. Enquanto esperavam o ônibus, consegui - juro que não sei como - ouvir ela dizer que tinha medo das consequências e fiquei me perguntando, obviamente, "mas que raios de consequências, meu deus?" e então o cara a beijou. Não esperava por aquilo, nem mesmo ela - creio eu. ESTUPEFATOS: foi assim que ficamos os três; acho que nem o cara acreditou no que acabara de fazer e após ainda perguntou: é dessa consequência que você tem medo? E com muita simplicidade ela disse que sim. No entanto, senti que era basicamente aquilo que eles queriam, mas senti também que parecia errado, havia tanto desejo, paixão, medo e estranheza naquilo tudo, nem mesmo eu sei como consegui notar - talvez meus olhos tão observadores estejam bem aguçados a ponto de detectar essas coisas, porém muito do que vi deduzi pelos trechos que ouvi da conversa. Sei lá, foi estranho. Eles pareciam um casal pra ninguém botar defeito. Eles ficaram por ali e eu tive que ir embora, seguir meu rumo, pois não conseguiria mais nada ali  também. 

Aquele ponto de ônibus certamente tem histórias melhores pra contar, pois eu tenho só uns trocados e uns contos de amor fuleiros no bolso, será que serve? Só não me peça pra contar sobre essa história, pois eu ainda busco respostas e acredito que esse casal tão misterioso também.

1 comentários:

José Corrêa disse...

Instigante. "esse é o nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante, a primeira vez, sempre a ultima chance!"